No coração da cidade de Tempo Tempo, o Bar do Alecrim, recém-reaberto e agora anfitrião de uma oficina literária semanal, torna-se palco de um evento sombrio. À meia-noite, com o bar já fechado após o encontro de escrita, um corpo jaz numa cadeira, transpassado por uma espada e com uma caneta-tinteiro cravada no olho. É Bartolomeu, o Bartô, o aluno mais polêmico do Professor Petrônio Pataca, idealizador da oficina.
Apaixonado por filmes noir clássicos — e dono de uma discutível veia detetivesca —, o professor inicia uma investigação particular enquanto lida com suas outras atividades: cuidar do seu lacônico escritório-casa e suas inusitadas companhias, ministrar aulas e ser um escritor de pouco sucesso. E se vê imerso em um emaranhado de perigosas intrigas literárias que envolve aspirantes a escritores (seus alunos da oficina), um pai-pastor conservador e reacionário que tenta sabotar seu projeto, e um inspetor de polícia que pode mais atrapalhar do que ajudar.
Em paralelo, descortinam-se a jornada de Bartô em vida — em sua busca por reconhecimento como escritor — e a rica história do Bar do Alecrim. Fundado em 1952, o local, envolto numa aura de magia e mistério, testemunhou glórias e declínios, atravessou o período de repressão da ditadura e foi ponto de encontro de cronistas da época — Antônio Maria, Fernando Sabino, Clarice Lispector, Paulo Mendes Campos, Vinicius de Moraes, Cecília Meireles e outros. Amigos e boêmios, já famosos naquele tempo, eles surgiam às quartas-feiras, vindos sabe-se lá como e de onde, e se tornaram parte importante da mística do bar.
Enquanto tudo isso se desenrola, uma presença misteriosa observa e anota cada detalhe, desde sempre. O objetivo? A resposta está no Alecrim — em suas páginas, em suas crônicas, no ar…

O noir encontra a crônica no Alecrim
Rubem Penz
Escritor, professor e músico
Prezados leitores,
É com grande satisfação e um toque de orgulho que apresento a vocês este livro, uma obra que não apenas homenageia a crônica brasileira e seus mestres, mas que também se enraíza profundamente em um espaço que se tornou um verdadeiro templo da palavra: a mesa de bar.
O autor, Giancarlo Carvalho, é um dos nossos mais célebres cronistas, e esta obra é o fruto e o tributo à atmosfera, ao método e, principalmente, às influências que nos movem. Na mesma medida, é um admirador dos romances policiais e da atmosfera cinematográfica que caracteriza a estética noir. Um blend assim especial só poderia gerar um thriller cheio de mistérios e reviravoltas, com forte marca histórica e uma trama capaz de capturar a atenção da primeira à última linha.
O Bar do Alecrim não é apenas um cenário: ele é, em si, personagem de uma longa história. Fundado em 1952, atravessou épocas, desde o esplendor da crônica até os tempos da repressão ditatorial. Num universo mágico, foi lá, entre copos de uísque, croquetes de bacalhau e boa música, que cronistas célebres como Antônio Maria, Fernando Sabino, Clarice Lispector, Paulo Mendes Campos e outros — nomes que nos guiam em cada encontro contemporâneo — trocaram impressões e escreveram suas páginas mais agudas. Essa rotina de encontros às quartas-feiras, descrita desde o princípio do livro, é o nosso “modus operandi”, e aqui ela serve de pano de fundo para um mistério.
O livro Crônica noir, morte no Alecrim capta com fidelidade a essência de nossa oficina. Contudo, naquele ambiente, “matar era tão complicado quanto escrever um bom texto”, um aforismo que resume a dificuldade de criar uma crônica impecável, e que, neste romance, ganha um sentido literal e macabro.
A trama, centrada na misteriosa morte de Bartolomeu (Bartô) — o polêmico aluno do professor Petrônio Pataca — é um brilhante cruzamento entre a acelerada prosa breve e o gênero policial noir. O Professor, um apaixonado por filmes clássicos, se vê imerso em um enredo desafiador. O leitor encontrará aqui as marcas do gênero — a atmosfera sombria, a investigação particular e a ambientação noturna — misturadas à rotina típica das oficinas de ofício.
Desde a abertura, com o uso da caneta-tinteiro de metal como arma cravada no olho esquerdo da vítima, e a frase insolente na testa — “MEU TEXTO É UMA MERDA!” —, o autor traz metáforas poderosas sobre a crítica literária, a vaidade e a busca obsessiva pela escrita perfeita, temas tão caros ao refazer incessante e obstinado.
Esta obra de Giancarlo Carvalho é um presente para todos nós que fazemos oficina literária, e a todos os que amam a literatura. Ela prova que a crônica, transformada em tema, é um gênero vivo, capaz de se mesclar com o mistério e a ficção policial. É sua homenagem à arte da escrita.
A resposta para o mistério está no Alecrim, em gênese, em suas mesas, cadeiras, páginas e crônicas. Permitam-se mergulhar nesta narrativa cativante.
Boa leitura!
Crônica no bar, Literatura no ar (orelha principal)
Edgar Aristimunho
Escritor
Escrever sobre livros que guardam mistérios já traz em si um mistério para quem escreve um preâmbulo: como esconder a revelação? O livro que o leitor tem em mãos é daqueles que nos prendem do início ao fim, uma história que nos envolve num suposto crime de solução complexa. O autor é mestre no assunto, e o leitor sai perplexo do livro.
Crônica noir, morte no alecrim, do mineiro-quase-gaúcho Giancarlo Carvalho, é uma espécie de continuação de sua obra de romancista-cronista. Estão presentes o humor refinado, a crítica nos detalhes, os amores quase correspondidos. O autor apresenta qualidade única ao mostrar que a vida não pode ser desvendada — todos carregamos infinitos segredos. Estamos diante de um assassinato quase teatral que revela uma trama intrincada de complexidades rudes e reprimidas, onde o suspeito pode ser até mesmo o leitor. Detalhe genial dessa história: ela se passa em um lugar improvável, a mesa de uma oficina literária, no Bar do Alecrim.
Cheio de clima, com seus mistérios, charme e reviravoltas constantes, posso testemunhar que Giancarlo, neste livro, consegue nos manter grudados na trama, presos aos seus deliciosos personagens. Somos, sim, quase cúmplices.
Tetê Lopes
Escritora e revisora
Uma trama que, definitivamente, desperta a curiosidade. Desde a abertura, com o uso da caneta-tinteiro de metal como arma cravada no olho, a espada atravessada no peito e a referência à mesa do bar onde acontecia uma improvável oficina literária, tudo intriga o leitor e o faz querer saber mais, já que a promessa é de uma história em que crime e escrita serão entrelaçados na construção dos personagens e ambientes. A, digamos assim, trilha sonora, embala a curiosidade sobre as aventuras que dali surgirão. Aventuras plenas de mistério e descobertas que o leitor acompanha pela escrita fluida, temperada de humor e com descrições que levam a experimentar como (quase) real tudo o que está escrito. Os personagens, vários, são descritos como figuras que podemos reconhecer entre nossos conhecidos, o que torna a leitura instigante. E o Bar do Alecrim, com características muito particulares, também se transforma, durante a leitura, em um espaço que parece familiar, tal a descrição detalhada e afetiva do lugar. Para completar, a atmosfera um tanto sombria, os mistérios revelados no tempo certo, tudo contribui para que, uma vez iniciada a leitura, seja difícil abandoná-la. E não há maior prazer, para o leitor, do que sentir-se parte de uma trama bem construída, leve e, ao mesmo tempo, profunda. Um grande livro.
Ana Luiza Rizzo
Escritora e doutora em escrita criativa
Os personagens e os eventos dessa trama misteriosa, criada pelo Giancarlo Carvalho, nos pegam pela mão e instigam nosso cérebro a imaginar a evolução dos acontecimentos, para nos surpreender a cada página e até a última frase. A escrita limpa e envolvente provoca nossos sentidos tal qual o aroma do alecrim, uma espécie de coadjuvante onipresente no cenário principal. Os fios que entrelaçam as persona-lidades intrigantes e únicas dos personagens nos enredam pelo que encontramos de familiar em seus conflitos e pelas emoções que nos despertam: angústia, raiva, medo, rivalidade, pena. Mas também rimos dos seus hábitos inusitados e sorrimos ao descobrir que a leitura nos embala com o prazer característico das boas histórias.
Quem ler saberá. E, ao chegar ao ponto final, começará a aguardar o próximo romance do autor.




